Personagem: José de Castro Mendes

José de Castro Mendes nasceu em Campinas em 27 de junho de 1901 e após sua morte, em 26 de janeiro de 1970, teve seu nome emprestado ao teatro municipal, localizado na Vila Industrial. E ainda é nome de rua no Bairro São Bernardo.

Jornalista, pintor, músico, fotógrafo (muitas de suas fotos ajudam a contar a história de Campinas), poeta, historiador e cronista, José de Castro Mendes, Zeca ou Zek, como era conhecido (vamos usar Zeca, como sua afilhada e sobrinha-neta – Vera Lúcia F. Donnelly – se referencia à ele), foi, acima de tudo, um memorialista, que dedicou boa parte de sua vida à história de Campinas, empregando seus talentos na busca pelo passado, rememorando em seus escritos e imagens uma “cidade que não mais existe”.

Vera Lúcia F. Donnelly, aos 3 anos de idade, no colo do seu padrinho e seu Tio Zeca. Esta senhora tem uma homenagem à ele no endereço eletrônico: http://br.geocities.com/verinha_2000/

Autor de vários livros, artigos e pinturas, os trabalhos de Zeca apresentam em sua maioria um objeto: Campinas. Conta a história que o memorialista dividia seu dia entre o Instituto Agronômico (onde trabalhou como desenhista até a aposentadoria), o Correio Popular e o Centro de Ciências Letras e Artes (onde criou e dirigiu os museus Carlos Gomes e Campos Salles), local em que permanecia horas pesquisando sobre a história local.

Seus trabalhos trazem aspectos marcantes do passado campineiro, que buscava nos jornais antigos, nos cronistas de meados de 1800 a meados de 1900 (como o mestre do “bairrismo campineiro” Leopoldo Amaral e Benedicto Octávio) e nas histórias do dia-a-dia.

Portanto, seja através da simples rememoração ou de análises mais aprofundadas, valendo-se de documentações escritas ou memórias, Zeca construiu uma história da cidade muito repetida até hoje por diversos pesquisadores.

Sua produção apresenta traços marcantes do momento vivido por Zeca e pela cidade. Nas décadas de 1940, 1950 e 1960, Campinas passava por grandes alterações em seu espaço urbano, resultado da “política de melhoramentos urbanos”, de autoria do engenheiro Prestes Maia, implantada em 1937. Atendendo às demandas do crescimento industrial e populacional, aliadas aos interesses imobiliários, são eliminados alguns dos símbolos do café da cidade provinciana em que Zeca havia vivido até então.

O centro antigo seria amplamente remodelado. Em 1956, foi demolida a Igreja do Rosário, para a ampliação da estreita rua Francisco Glicério. No ano de 1965, o Teatro Carlos Gomes veio abaixo após ferrenhas discussões. Antigos casarões também deixam de existir, como o palácio Ambrust, ou sofrem fortes intervenções, a exemplo do palácio da Mogyana. Novos “arranha céus” são erguidos, praças são remodeladas, ruas são criadas e recriadas, alterando assim o “viver na cidade”, modificando sensibilidades e por conseqüência o cotidiano da população.


Os trabalhos de Zeca saúdam esta nova fase de Campinas, exaltando o progresso e o crescimento da cidade. Assim, ao mesmo tempo em que buscam em tom nostálgico celebrar a cidade que havia sido, também dão vivas aos novos tempos.

Em “Efemérides Campineiras” estão reunidos aqueles que Zeca considera os principais fatos da vida de Campinas ano a ano, desde sua fundação até o momento atual em que o livro estava sendo produzido.

O enorme suplemento “História da Cidade de Campinas”, publicado no Correio Popular dos anos de 1968 a 1970, conta a história da cidade através dos grandes fatos e figurões desde os tempos de Barreto Leme, apresentando nos encartes aspectos da vida cultural e social local. Outra parte de seus trabalhos publicados constituem-se em coletâneas de imagens (fotos, aquarelas e gravuras).

Acima, imagem do título da seção onde Zeca mostrava duas fotos do passado e presente à época.


O álbum “Retratos da Velha Campinas” foi publicado em 1951 na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo e mostra dezenas de imagens coletadas pelo autor, reunindo fotos antigas e pinturas de H. Lewis, Hércules Florence e do próprio Zeca, com o objetivo de rememorar

O que não mais existe, demolido ou modificado pelas reformas, incluímos neste acervo histórico reproduzido de alguns desenhos e fotografias raras, material valiosissimo, dificilmente encontrado aqui e ali, guardado sempre, carinhosamente, pelos bairristas apaixonados e zelosos de tudo quanto diz respeito à sua terra natal .

Outro trabalho, “Velhas Fazendas Paulistas” reúne aquarelas de sua própria autoria relembrando partes internas e externas dos antigos sobrados do período cafeeiro do interior do estado, trazendo aspectos da arquitetura colonial e revivendo uma época considerada áurea.

Apesar de muitas de suas obras, principalmente pinturas, estarem perdidas em meio aos desorganizados arquivos e coleções de Campinas e até de outras cidades, algumas de suas mini aquarelas fazem parte do acervo fixo do Museu da Cidade e estão à mostra na exposição “Labirintos da Memória” (módulo da destruição), relembrando esta cidade que “não mais existe”.

Assim, quem visitar a exposição poderá conhecer, por exemplo, o Teatro São Carlos (o primeiro da cidade), erguido em 1850, a praça Carlos Gomes antes dos embelezamentos de 1912/13, o socamento de taipa na construção da Matriz Nova (Catedral) em meados do século XIX, além de inúmeros casarões que já desapareceram ou perderam sua feição e uso inicial ao longo dos anos.

José de Castro Mendes ministrando palestra no Colégio Culto à Ciência em 04 de novembro de 1965.

Também estão presentes: o Mercado das Andorinhas, importante ponto comercial, demolido em meio aos processo de reorganização urbana já citado; alguns dos primeiros chafarizes, que serviam então como posto de abastecimento de água ou lavagem de roupa; a primeira capela da cidade, erguida onde hoje se encontra o monumento a Carlos Gomes (ponto inicial da cidade).

Certa feita, o companheiro de imprensa Luso Ventura disse que José de Castro Mendes era o homem de dois amores, “o amor de sua mãe e o amor de sua cidade”.

Campinas unia-se à sua vida de forma quase visceral. Sua dedicação à cidade chegava a ser, segundo os companheiros, parte de seu caráter. Para Luis Horta Lisboa, até mesmo seus excessos seriam perdoáveis em razão de sua dedicação à Princesa D´Oeste: “ Era muitas vezes rijo em seus julgamentos, mas quem o conhecia perdoava os excessos, pois eram estes aspectos o resultado de seu extremado amor à terra natal. Foi sempre fiel à arte e à Princesa D´Oeste, a quem ele cultuava acima das conveniências pessoais”.

De forma um pouco maldosa, Paranhos de Siqueira, também jornalista e especialista em “elogios” fúnebres (nem sempre muito elogiosos), reafirmou, em artigo publicado no jornal Correio Popular, a dedicação com que Zeca entregava-se aos estudos relacionados à Campinas: Espírito solitário, andava sempre sozinho. Tinha muitos conhecidos, mas poucos amigos. Dava-se bem apenas com os papéis velhos dos arquivos oficiais, onde ia buscar, na cata das vigílias prolongadas o acontecimento histórico ainda não revelado pela história. Aí sim, no manuseio dos alfarrábios comidos pelo tempo, no convívio de documentos sem idade, empastados de poeira e atacados de traças – aí, sim, ele sentia-se à vontade. Para saber se Carlos Gomes espirrou ou tossiu, em 1870, em Milão, quando levou à cena o “Guarani”, ele passava noites e noites consultando este tomo, indagando daquele autor, como se disso dependesse, mais do que o sossego da sua alma, o pão da sua mesa.

O texto de Siqueira, apesar dos exageros, serve para ressaltar uma característica presente nas biografias e na produção de Zeca: sua extrema dedicação e vinculação à sua cidade, que se transformou ao mesmo tempo em seu local de vida e seu objeto de estudo e que se constituiu em sua “marca”.

Por meio de livros, artigos nos jornais, aquarelas e organização de diversas coleções e exposições, Zeca celebrou a sua “amada” terra natal sem que isso lhe valesse algum lucro, ou colocasse pão à sua mesa. Era um apaixonado pela cidade e cada um de seus trabalhos era repleto de dedicatórias e elogios a sua terra natal.

Ainda que fosse membro de uma família campineira tradicionalmente ligada ao comércio de bens culturais (seu tio-avô Antônio Benedito Castro Mendes era proprietário da afamada Casa Livro Azul, loja importadora de instrumentos musicais e sempre aberta à produção cultural da cidade), não teve uma infância fácil, pois, desde que perdeu seu pai teve que trabalhar para ajudar no sustento da família. Aparentemente, o sobrenome conhecido não lhe trouxe muitos benefícios em sua juventude.

Zeca era uma pessoa extremamente culta, um “tríplice artista”, como disse Raphael Duarte: musicista, crítico de teatro e principalmente um bom desenhista. Esta sua habilidade lhe propiciou, além do emprego no setor de Botânica do Instituto Agronômico de Campinas – IAC – (onde desenhava “plantas nativas e plantas com doença”), envolvimento desde a juventude com artistas e intelectuais da cidade.

Colaborou na revista modernista A Onda, ilustrou o livreto de poemas Nebulosas, do colega Júlio Mariano, e elaborou alguns cenários para peças do teatro amador da cidade, como, por exemplo, “História da Vida de Jesus”, produzida e estrelada por Carlos “Carlito” Maia, filho do ex-prefeito da cidade, Orosimbo Maia. Como também era um especialista nas artes em geral, manteve por muitos anos, no Correio Popular, as colunas “Minarete” e “Teatro e Cinema”. Em homenagem à essa ligação e principalmente aos serviços prestados como incentivador e divulgador do teatro amador, em 1974 um teatro da cidade foi batizado com seu nome.
Zeca Mendes e Carlito Maia em evento no Teatro Municipal Carlos Gomes na década de 1950.

No IAC publicou seu primeiro trabalho, o álbum Velhas Fazendas Paulistas, realizado em parceria com o engenheiro J.E. Teixeira Mendes, em 1947. Coube a Zeca compor as aquarelas, que tinham o intuito de mostrar ao mesmo tempo a pujança de tempos anteriores e o “atual estado” das fazendas da região de Campinas. Por este trabalho recebeu elogios do escritor Menotti Del Picchia, que referenciou Velhas Fazendas como um dos principais registros em imagem das antigas fazendas cafeeiras.

O interesse pela história, era, para Zeca, o interesse pela história de Campinas, qualquer assunto referente ao passado da cidade lhe interessava: artes (tema para o qual dedicou um artigo na Monografia de Campinas, organizada por Júlio Mariano e Carlos Francisco de Paula), política, costumes e aspectos urbanos.Segundo a crônica local, seu dia a dia era trabalhar no IAC e depois ir ao arquivo do Centro de Ciências Letras e Artes de Campinas (CCLA), onde dedicava horas à leitura de jornais e documentos antigos. Também no CCLA, Zeca foi criador e diretor dos museus Carlos Gomes e Campos Sales.

As antigas fotografias, algumas de coleção particular, outras do acervo do CCLA, que vez ou outra reproduzia em aquarelas, possibilitou-lhe compor alguns de seus mais conhecidos trabalhos, como o artigo “Retratos da Velha Campinas”, publicado inicialmente na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, em 1951, e Efemérides Campineiras, lançado em 1960, trabalho pelo qual ganhou a medalha “Carlos Gomes” de literatura.

No jornal Correio Popular, onde trabalhou de 1927 (ano da criação do periódico) até o final de sua vida, escreveu inúmeras séries a respeito da história da cidade, como “Isto não é História”, “Documentário de duas épocas”, “Efemérides Campineiras”, e a mais famosa, “Retratos da Velha Campinas”. No início da década de 1960, elaborou ainda, desta vez para o jornal Diário do Povo, uma série em quadrinhos sobre a história da cidade, destinada às crianças.

No Correio publicou também, pouco antes de sua morte, o extenso suplemento “História da Cidade de Campinas”, reunindo, por meio de temas, a história de ruas, praças, prédios, dos “grandes campineiros” (especialmente Carlos Gomes, celebrado com um volume inteiro) e também elencando episódios da “cidade princesa” que considerava importante.

Zeca costumava dizer “santo de casa não faz milagre”, referindo-se ao pouco interesse da população em geral para com seus trabalhos. Comparava a gélida recepção dos estudos a respeito da história da cidade com o tratamento que a cidade havia dado a Carlos Gomes, enquanto o maestro ainda era vivo. No final de sua vida, desiludido, resolveu queimar todos seus manuscritos.
Finalizando citamos o poema composto por Martins Fontes e que foi tomado de empréstimo por Zeca, que utilizou-o como epígrafe de alguns de seus trabalhos e revela o sentimento de pertença e amor à Campinas nas produções deste grande campineiro:

“De minha terra para minha terra
tenho vivido. Meu amor encerra
a adoração de tudo quanto é nosso.

Por ela sonho, num perpétuo enlevo,
e, incapaz de servi-la quanto devo
quero, ao menos, amá-la quanto posso !”

Obras de José de Castro Mendes: Efemérides Campineiras; Retratos da Velha Campinas; Velhas Fazendas Paulistas; Suplementos Ilustrados do jornal Correio Popular e História de Campinas em quadrinhos, publicada diariamente em tiras, pelo jornal Diário do Povo.

Foto do teatro que leva seu nome.

Outros detalhes podem ser vistos em: http://www.centrodememoria.unicamp.br/sarao/revista42/sarao_ol_texto3.htm

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